Inglês não é um problema intransponível

De forma dramática, eu coloquei uma bola sobre a mesa e disse: "Hi! The ball is on the table! I am Jose Securato and it is a great pleasure to be here at POLI/USP to discuss the global investment banking industry..." Continuei falando em inglês (e bem rápido) por mais um ou dois minutos, deixando o pessoal da POLI Junior de cabelo em pé, pois não havíamos combinado de fazer uma palestra em inglês. Imaginem a cena: no auditório, peguei a bola da mesa, e como um goleiro que "recoloca a bola em jogo" dei uma bica na bola, dando-a de presente para um politécnico atônito. Certo que eu tinha a atenção de todo mundo, falei com a voz do Darth Vader: "se de tudo que eu disse, a única coisa que você entendeu foi "the ball is on the table" você está ferrado".


Investment banking é uma indústria global que acontece em inglês. Os termos são em inglês: Enterprise Value, EBITDA, Sale and Purchase Agreement, IPO só para mencionar alguns. Em 2009, quando eu preparei a primeira aula de Introdução a Investment Banking da Saint Paul Escola de Negócios, procurei evitar os termos em inglês para não parecer arrogante. O material ficou um lixo, reverti tudo para o inglês e expliquei para a coordenação da escola que graças a Deus entendeu: precisamos usar o jargão da indústria. Nos grandes bancos globais, o dia a dia é em inglês mesmo: as apresentações são feitas em inglês para os times globais terem a oportunidade de contribuir, os conference calls são em inglês, os emails em inglês. É comum nos pegarmos conversando em inglês entre nós mesmos - acaba sendo mais prático. E na prática, para trabalhar nos grandes bancos internacionais é fundamental ter inglês fluente.


O que é ser fluente? Para mim, ser fluente é ter capacidade de negociar efetivamente naquela língua. Muita gente representa erradamente nos seus CVs a fluência com que falam uma língua - cansei de pegar gente no pulo. Escreva o que você quiser no seu CV, mas saiba que "se virar na Disney" não é uma evidência de ser fluente em inglês, e um fim de semana em Buenos Aires não é evidência da sua fluência em espanhol. Ter desenvoltura é importante e ajuda, mas não confunda com fluência que é requerida por algumas profissões como Investment Banking.


Os assessores financeiros com atuação mais local irão exigir inglês "fluente", mas não necessariamente fluente ao nível de ser capaz de negociar um contrato em inglês. Sim, há diferença... um foi criado/educado em inglês e talvez tenha morado nos Estados Unidos por pelo menos um ano, o outro estudou muito a língua, passou nos testes de proficiência e talvez fez uns 2-3 meses de intercâmbio. Enquanto a experiência de um intercâmbio é sempre incrível, na maioria das vezes convivemos com outros alunos estrangeiros que falam inglês tão mal quanto a gente - o aprendizado é ótimo mas limitado, e poucos percebem isso.


A boa notícia é que a maioria dos empregos e atividades não exigem uma pessoa com fluência de negociação. Falar bem, com desenvoltura, é suficiente para se comunicar, causar uma boa impressão e fomentar negócios em que as duas partes estão pré-dispostas. Nestas atividades, eventualmente se precisa de um inglês mais sofisticado, o que pode ser resolvido com assessores jurídicos ou financeiros especializados. Eu mesmo cansei de fazer intermediação entre gringos e brazucas, e para uma firma pequena como a Saint Paul Advisors, nos envolvemos em uma quantidade substancial de cross-border deals em função do meu background e especialização.


Se você está na dúvida de quanto vale a pena investir no inglês, saiba que o mundo fica muito maior quando você domina a língua. Além da óbvia vantagem quando se viaja para o exterior, a literatura é muito mais ampla, especialmente no formato de audiobook. Os vídeos e filmes são muito mais fartos na língua inglesa, e as coisas ainda demoram um pouco para chegar em Português. Decidimos educar nossas filhas em inglês porque i) era importante maximizar seus horizontes e ii) não queríamos que a falta de fluência limitasse as opções de carreira delas como limitou as minhas e da minha esposa no começo das nossas carreiras. Hoje, em casa, somos todos capazes de negociar em inglês, inclusive a caçula de 2 anos.


Busque uma vivência em inglês. Estude seriamente, sozinho ou com ajuda. Prepare-se para as provas escritas e orais, leia em inglês, escreva em inglês, assista TV em inglês (que tal sem legenda?). Recomendo passar um tempo fora do Brasil, de preferência engajado na sua atividade favorita com pessoas daquela região e longe da sala de aula infestada de estrangeiros como você. Busque "summer camp" no google e descubra que a maioria deles não envolve acampar no mato - recomendo, por exemplo, o summer camp do Bronx Zoo em Nova Iorque.


A maioria dos empregos e atividades no Brasil que exigem inglês fluente na verdade esperam um nível de inglês avançado, falado com desenvoltura. Poucos empregos exigem a fluência de inglês requerida para se negociar um contrato, que geralmente é obtida ao ser educado em inglês ou morando nos EUA por um bom tempo. Investment Banking em um banco internacional é certamente uma delas. Independente do caso, falta de fluência em inglês não é um problema intransponível e só depende de você superá-lo. E agora... Is the book on the table?


José Securato é Sócio-Fundador da Saint Paul Advisors, uma boutique de M&A.


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